A origem do nome Odivelas está
como o nome de tantas outras freguesias e concelhos de Portugal,
envolto numa lenda que perdura pelos séculos.
A propósito do nome desta cidade,
conta-se que D. Dinis tinha o hábito de deslocar-se
à noite a Odivelas onde se encontrava regularmente
com raparigas do seu agrado. Certa noite, sabendo a rainha
do que se passava resolveu esperá-lo e quando o rei
fazia o seu percurso para o encontro, a rainha interpelou-o
e eis que proferiu as seguintes palavras:
"- Ide vê-las senhor....."
Afirma-se que de "Ide vê-las",
por evolução, teria surgido o nome Odivelas.
Os filólogos dão porém,
outra explicação: a palavra compõem-se
de dois elementos: "Odi" e "Velas". A
primeira é de origem árabe e significa "curso
de água". A segunda é de origem latina
e refere-se às velas dos moinhos de vento, que existiram
nos outeiros próximos e dos quais podemos ainda ver
vestígios. O curso de água ainda se mantém
hoje.
Os dólmens das Pedras Grandes
e das Batalhas, na Freguesia de Caneças, o Castro da
Amoreira na Freguesia da Ramada, os vestígios romanos
encontrados na Póvoa de Santo Adrião, os achados
árabes no sub-solo da Paiã, na Freguesia da
Pontinha, confirmam o território como uma zona fértil
e agradável, onde, ao longo dos séculos, o Homem
sempre se comprazeu em viver.
Mas o «motor de arranque»
do desenvolvimento da região parece ter sido o Rei
D. Dinis, ao decidir erguer, em Odivelas,
um Mosteiro, onde uma plêiade de cultas freiras se fez
ouvir para além das grades, quer pelos seus célebres
Outeiros, quer pelos livros que escreveu, ou ainda atraindo,
ao Mosteiro e às suas imediações, reis,
príncipes e artistas.
É no Paço de Odivelas,
em 1415, que D. Filipa de Lencastre, já no leito de
morte, abençoa os três filhos mais velhos (D.
Duarte, D. Pedro e D. Henrique) que partem dali, a cavalo,
em direcção ao Restelo, onde embarcam para Ceuta.
É no Convento que se representa
pela primeira vez, em 1534, o «Auto da Cananeia»,
de Gil Vicente, encomendado pela abadessa Violante, irmã
de Pedro Álvares Cabral.
Enquanto isso multiplicam-se férteis
quintas na Pontinha (na Paiã chegou a haver um cais
para escoar os víveres para Lisboa), na Póvoa
de Santo Adrião, em Caneças. Os seus proprietários,
de uma forma ou de outra, surgem amiúdes ligados à
cultura. É o caso do pintor Vieira Lusitano que foi
o centro de uma romântica e atribulada história
de amor com uma das filhas dos donos da Quinta dos Falcões,
na Pontinha.
Anos depois, será a Póvoa
de Santo Adrião a ter como proprietário de uma
das suas quintas, o pintor Pedro Alexandrino que não
só deixou algumas obras na igreja local, como as espalhou
por Lisboa - na Sé, no Palácio de Queluz, no
Museu dos Coches.
O Padre António Vieira fez um
dos seus sermões no Convento de Odivelas, a 22 de Junho
de 1668. Almeida Garrett ocupa o preâmbulo da «Lírica
de João Mínimo» com uma descrição
de um passeio ao Convento, entrecortada por várias
dissertações sobre poesia.
Um roubo na Igreja de Odivelas a 11
de Maio 1671 dá origem a um belo monumento, o «Senhor
Roubado», que alguns
descrevem como a primeira banda desenhada
portuguesa, e que levanta muitas pistas sobre a forte presença
da Inquisição na região.
Os missionários cansados e doentes
que regressam da Ásia ou da África acolhem-se
ao Convento de Rilhafoles, na Paiã.
Em 1723, entra no Convento de Odivelas
uma freira brasileira que algumas madres julgam judia. Nem
mesmo o inquérito de um cardeal inquisidor as demove
da suspeita, o que as leva a exigir a expulsão da “herege”.
Em procissão, lá vão a caminho de Lisboa
para se queixarem ao rei, que não as recebe.
À força, soldados pegam-lhes
ao colo e metem-nas em carruagens, devolvendo-as ao Convento.
Pouco tempo depois, entra no Convento,
a célebre Madre Paula, por quem o Rei
D. João V, 30 anos mais velho do que
ela, ficará completamente perdido de amores. A relação dura
até à morte do monarca, que lhe deixa em testamento uma mesada.
Em 1731, D. João V decreta o início
da construção do Aqueduto das Águas Livres, com origem na
Fonte das Águas Livres, perto de Carenque, indo desaguar no
depósito das Amoreiras, cuja Mãe d'Água foi acabada em 1834.
A Mãe d'Água nas Amoreiras, além de ser um bonito espaço,
é um depósito com capacidade para 5 500 000 litros. A partir
das Mães d'Água a água seguia, através de túneis subterrâneos,
que a levavam até às numerosas fontes de Lisboa.
O Aqueduto das Águas Livres nunca
foi totalmente eficaz porque fornecia água impura e em pequena
quantidade e, neste momento, não é mais do que um monumento
histórico que resistiu ao Terramoto de 1755.
Não se sabe a data concreta da construção
dos aquedutos de Caneças, mas situa-se por volta da segunda
metade do século XVIII. Estes são quatro: o do Olival do Santíssimo,
o do Poço da Bomba, o do Vale da Moura e o do Carvalheiro.
O terramoto de 1755 causa grandes estragos
na região mas leva também a que muitos lisboetas
se venham fixar na zona, à procura de ares mais saudáveis.
Mais tarde, em 1833, é construído,
na Quinta da Pentieira (Freguesia da Pontinha), um cemitério
para sepultar as vítimas da cólera.
Até meados do século XIX, Lisboa era
uma cidade suja, afectada por numerosas epidemias. Os cidadãos
ricos pagavam aos Aguadeiros, entre os quais os de Caneças,
para lhes levarem água a casa. Caneças e as suas águas eram,
então, muito
apreciadas pela sua qualidade. Situam-se
na freguesia de Caneças um conjunto de Fontes, que comercializaram
água e que constituem um marco de uma época e de modos de
vida característicos da freguesia, e em sentido mais lato
do concelho. A venda da água de Caneças fazia-se através de
carroças ou galeras, que transportavam para Lisboa e arredores
a água em bilhas de barro, juntamente com as trouxas de roupa
das lavadeiras e produtos hortícolas.
Com a extinção das ordens religiosas,
a terra perde algum do seu fulgor. No início do séc. XX era,
contudo, uma terra procurada para os prazeres do Verão, pelos
senhores de Lisboa.
É por essa altura que a vida
municipal local começa a desenvolver-se. As freguesias
de Odivelas e Pontinha fazem parte do Município de
Belém, na altura em que este é presidido pelo
escritor Alexandre Herculano. As duas freguesias passam, a
integrar o Município dos Olivais em 1885. No ano seguinte,
é instituído o Município de Loures, de
que fazem parte algumas freguesias que hoje pertencem ao Concelho
de Odivelas. Em 1915 é criada a Freguesia de Caneças.
Começa a surgir um outro tipo
de desenvolvimento, já não assente na agricultura
mas na construção de bairros sociais em várias
freguesias. A ligação por estrada a Lisboa,
leva alguns grupos económicos a comprar na região
grandes propriedades, enquanto a alta burguesia compra terrenos
que transforma em quintas de férias.
É na Pontinha que, a 25 de Abril
de 1974, se instala o Posto de Comando do Movimento das Forças
Armadas que instaurará um regime democrático
em Portugal. Actualmente, este quartel integra um Núcleo
Museológico, criado através de um protocolo
estabelecido entre o Regimento de Engenharia N.º 1 e
a então Comissão Instaladora do Município
de Odivelas.
Na região intensifica-se, a
partir de então, o movimento de loteamento de terrenos
que modificará profundamente a paisagem local. Nos
25 anos seguintes, aparecem 85 bairros clandestinos. Simultaneamente,
com a falta de habitação a preços acessíveis
em Lisboa, verifica-se uma explosão da construção
civil, surgindo em todas as freguesias do concelho, à
excepção da de Famões, grandes urbanizações
que se traduzem numa subida relâmpago do número
de habitantes, com formas de estar na vida diferentes e mais
exigentes daquelas que tinham até aí os habitantes
da região.
O Poder político tenta responder
a essas aspirações criando as Freguesias da
Pontinha (1984), de Olival Basto, da Ramada e de Famões
(1989). A Póvoa de Santo Adrião passa a vila
em 1986, Odivelas é elevada a cidade em 1990, a Pontinha
sobe a vila (1991), o mesmo acontecendo ao Olival Basto em
1997. Neste mesmo ano, um grupo de cidadãos, defendendo
um desenvolvimento próprio para a região, cria
o «Movimento Odivelas a Concelho».
No dia 19 de Novembro de 1998,
com o voto unânime dos Deputados de todas as forças políticas,
a Assembleia da República votava, na especialidade, e em votação
final global, o Projecto de Lei da Criação do Município de
Odivelas. Ficando este dia, estipulado como Feriado
Municipal.
No dia 14 de Dezembro de 1998, é publicado
no Diário da República, a Lei n.º 84/98, da criação do Município
de Odivelas referindo o seu Artigo 1º: "Através do presente
diploma é criado o Município de Odivelas, com sede na Cidade
de Odivelas, que fica a pertencer ao Distrito de Lisboa".
Em 20 de Janeiro de 1999, a Comissão
Instaladora do Município de Odivelas é empossada pelo então
Ministro do Equipamento, Planeamento e Administração do Território,
Dr. João Cravinho.
Depois de 3 anos de administração,
a Comissão Instaladora cessa funções, e no seguimento das
eleições autárquicas de Dezembro de 2001, toma posse, no dia
4 de Janeiro de 2002, a primeira Câmara Municipal de Odivelas.
Bibliografia
- Inventário do Património
Arquitectónico, Direcção Geral dos
Edifícios e Monumentos Nacionais, Lisboa, s.d.
- Rotas de Loures, Gabinete de Turismo
da Câmara Municipal de Loures, s.l., 1998.
- VAZ, Maria Máxima, “Património
Histórico- Artístico”, AA.VV., Loures. Tradição
e Mudança, vol. I, Loures, C.M.L., 1986.
- Caneças, uma história de água,
com Passado, Presente e Futuro, edição da Junta de Freguesia
de Caneças, Março 2001.
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